por Janer Cristaldo
Quem gosta de cachorros e crianças não pode ser bom caráter – dizia William Thackeray. A frase do novelista inglês deve provocar arrepios nesta nossa época em que os cães estão substituindo os seres humanos na escala dos afetos. Gosto de cães, mas com distância. Tive vários em minha infância, adorava brincar com eles no campo e tive de deixá-los quando fui para a cidade. Meus pais consideravam que cidade não é pra cachorro. Quando os revisitava no Ponche Verde, eles me reconheciam de longe e saíam a fazer-me festa.
Mas nunca consideramos cachorro como gente. Nós vivíamos em casa. Eles, lá fora. E que tratassem de seu sustento. No campo havia muita caça. Fora isto, alguma sobra de cozinha, e olhe lá. Meu espanto com o tratamento recebido pela raça começou em Estocolmo, anos 70, quando vi pela primeira vez um manual de culinária canina. (Hoje, em São Paulo, já há chefs para cães). E continuou em Paris, onde o direito de visita ao cão virou objeto de disputa judicial entre casais que se separavam.
Criado e nascido no campo, estas deferências para com os cães, que são tratados com um carinho que supera o dedicado aos seres humanos, até hoje me chocam. O cachorro acabou se adaptando, ou foi adaptado, à cidade, e hoje faz parte da geografia urbana. Eu que o diga, que vivo no bairro de maior concentração canina de São Paulo. Certa vez, eu conversava com uma wicca – é, isto também existe em São Paulo – que se fazia acompanhar de um imenso labrador. Lá pelas tantas, chegaram à mesa algumas amigas suas, apresentadas incontinenti ao cachorro. Fui solenemente ignorado. A mesa toda concentrou-se em torno ao animal. Discretamente, peguei meus jornais e dei no pé. Minha saída nem foi notada.
As páginas dos jornais estão recheadas de crimes medonhos, que parecem não mais causar espécie a ninguém. É o caso daquela moça que foi esquartejada e incinerada a mando de um goleiro de futebol. Ou daquela jovem advogada, que namorava um ex-inspetor de polícia. E tantos outros. Não tenho encontrado, nos ditos sites de relacionamento, manifestações de solidariedade a tais pessoas. Mas basta que um cachorro perambule pelas ruas, abandonado, e chovem manifestações em defesa do bicho. O Facebook, sem ir mais longe, virou um templo para cachorrófilas. Pelo que se vê, o cachorro goza de muito mais apreço que os seres humanos.
Até que entendo. O cachorro, mesmo se maltratado, recebe seu dono com um afago de volta. São incondicionalmente carinhosos, não têm vontade própria e assumem a ideologia do dono. Cachorro tem ideologia. Você já viu um gato policial? Certamente não. Mas cachorros policiais existem às pampas.
Reacionário e conservador, continuo preferindo a companhia dos bípedes. Ser humano é mais difícil que cachorro, é claro. Mas prefiro as arestas de meus semelhantes ao amor incondicional dos caninos. Em meio a isso, me espanta que até hoje os cachorrófilos não tenham reivindicado um status jurídico para os cães.
Já se tentou para os gorilas. Há uns cinco anos, ativistas da Nova Zelândia exigiam a extensão da comunidade dos iguais para incluir todos os antropóides: seres humanos, chimpanzés, gorilas e orangotangos. Como se igualdade houvesse entre racionais e irracionais. Enquanto o ser humano constrói desde pirâmides a cidades, desde televisores a iPods, os símios continuam pendurados pelo rabo nas selvas.
Os militantes da nova causa querem garantir aos símios o direito à vida, a proteção da liberdade individual e a proibição da tortura. Estão chovendo no molhado. Tais direitos sempre foram garantidos a essas espécies, sem declaração alguma de direitos dos símios. A liberdade individual pode até ser ameaçada pelos circos. Mas seria o caso de perguntarmos a um macaco – se é que ainda não é crime de racismo chamá-lo de macaco – o que ele prefere, se o conforto do circo ou a dura luta pela vida na selva. É claro que ele não vai responder.
Não bastasse este sofisma dos tempos modernos – a igualdade entre humanos e símios – ativistas mais exaltados querem agora conferir “direitos humanos” às orcas e golfinhos. O parque aquático Sea World, nos EUA, foi processado por confinar cinco membros de sua equipe em um espaço diminuto e obrigá-los a fazer rotineiramente apresentações para o público. As autoras da ação? Um grupo de cinco orcas.
Sei! As cinco orcas se reuniram na praia, elaboraram um habeas corpus, o assinaram e deram entrada no tribunal. Mas parece que não foi bem assim. As orcas foram representadas por uma ONG de direitos dos animais, que entrou com o pedido. Embora o juiz tenha optado por não levar o caso adiante, essa foi a primeira vez que um tribunal federal americano chegou a analisar algo do tipo. Perguntinha que se impõe: quem passou procuração à tal de ONG? As orcas não terão sido.
Junto aos direitos humanos das orcas, quer-se reconhecer também os direitos humanos dos demais cetáceos, que inclui os golfinhos e as baleias. Thomas White, especialista em ética da Universidade Loyola Marymount, nos EUA, é o principal defensor da causa. O que já é uma inovação: animais, hoje, passaram a ser sujeitos de uma ética. Reacionário como sempre, sempre imaginei que ética regulamentasse – ao lado do Direito – as relações entre seres humanos.
Ó tempora, ó mores! Uma carta de direitos dos cetáceos já está sendo cogitada. Para quando uma carta de deveres? Enquanto isso, seres humanos morrem aos magotes, em guerras e epidemias. Seria talvez oportuno elaborar uma declaração de direitos animais e nela incluir os humanos, para a proteção destes.
Em 2010, em um congresso em Helsinki, na Finlândia, foram decididos os pontos principais desse documento. Agora, White e outros cientistas viajam o mundo tentando difundi-lo. No mês passado, eles foram a um dos maiores eventos científicos do mundo, a reunião anual da AAAS (Sociedade Americana para o Progresso da Ciência) em Vancouver, no Canadá, tentando engajar os cientistas e a opinião pública em favor da causa dos cetáceos.
Defender baleias e golfinhos é fácil, eles continuam lá longe no mar enquanto seus defensores participam de congressos nas mais prestigiosas metrópoles do mundo. Difícil mesmo é defender o pobre diabo que morre de frio e fome a nosso lado, nas calçadas das grandes cidades.
Cleomilton Filho
"A independência de um homem é a única medida da sua virtude e do seu valor. O que um homem é, e o faz de si mesmo; não o que fez, ou deixou de fazer, pelos outros. Não há substituto para a dignidade pessoal. O único padrão de dignidade pessoal que existe é a independência. Em todos os relacionamentos dignos de respeito ninguém se sacrifica por ninguém". (Ayn Rand)
quarta-feira, 21 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
Na nuvem que passa ao longe
Cheio de si
Vazio
De que forma?
O esforço em vão
De tentar fixar
O que eu sei de mim
Usei em mim
O esforço vão
O vão que estraçalha
Ser grande
De que tanto?
Saudade do quê?
De quê?
Doer
Sóbrio
Tombando
De sono
Descanso
Naquele buraco
No fundo
Defunto
Eu quero
Ser
Lá
Sei lá
Na nuvem
que passa
ao longe
Vida longa
Pra quê?
Pra quem?
De quem?
Nuvem
Passa
Longe
Vazio
De que forma?
O esforço em vão
De tentar fixar
O que eu sei de mim
Usei em mim
O esforço vão
O vão que estraçalha
Ser grande
De que tanto?
Saudade do quê?
De quê?
Doer
Sóbrio
Tombando
De sono
Descanso
Naquele buraco
No fundo
Defunto
Eu quero
Ser
Lá
Sei lá
Na nuvem
que passa
ao longe
Vida longa
Pra quê?
Pra quem?
De quem?
Nuvem
Passa
Longe
segunda-feira, 12 de março de 2012
"Melhor ganhar pouco como jornalista no Brasil..."
"[...] Confesso que tive veleidades, quando jovem, de trocar definitivamente de país. Quando fui para a Suécia, minha intenção era não voltar. Foi quando descobri algumas coisas que os jornais, na época, não contavam. Em Estocolmo, tomei contato com uma palavrinha para mim pouco familiar: imigrante. Observei esta condição em meus dias no Norte. E decidi voltar. O imigrante, mesmo que obtenha passaporte do país para onde migrou, sempre será um cidadão de segunda classe.
Eu poderia fazer minha vida na Suécia como diskare – lavador de pratos – ou algo parecido – ganhando muito mais do que um jornalista no Brasil. Mas pensei com meus botões: melhor ganhar pouco como jornalista no Brasil do que ganhar muito como lavador de pratos em Estocolmo. Havia outra chance, casar com uma sueca. Mas seria algo desleal. Sem falar que a mulher que eu mais queria vivia aqui. [...]"
Janer Cristaldo em "Surge nova profissão: gigolô de dekassegui".
Eu poderia fazer minha vida na Suécia como diskare – lavador de pratos – ou algo parecido – ganhando muito mais do que um jornalista no Brasil. Mas pensei com meus botões: melhor ganhar pouco como jornalista no Brasil do que ganhar muito como lavador de pratos em Estocolmo. Havia outra chance, casar com uma sueca. Mas seria algo desleal. Sem falar que a mulher que eu mais queria vivia aqui. [...]"
Janer Cristaldo em "Surge nova profissão: gigolô de dekassegui".
sexta-feira, 9 de março de 2012
Gramática e Pensamento
Li a frase abaixo no Facebook de um amigo e achei-a ótima.
"Dominar a lógica da gramática contribui - de uma maneira misteriosa que novamente evoca algum processo de osmose - para a lógica do pensamento." [Francine Prose em "Para ler como um escritor"]
terça-feira, 6 de março de 2012
Explicado
O neurologista Kevin Nelson, liderando uma equipe da Universidade de Kentucky, descobriu recentemente que a experiência de ver-se fora do corpo físico pode ser produto de um transtorno do sono profundo. Normalmente, passamos do sono profundo para o estado de vigília sem escalas. Mas algumas pessoas têm um distúrbio em que os dois estados de consciência - adormecido e acordado - se confundem. Numa simplificação, é como se a mente acordasse antes do corpo, que segue paralisado em sono profundo, enquanto a mente faz um voo alucinatório fora do corpo. Como o transtorno é vinculado ao tronco cerebral, isso pode ocorrer mesmo que a parte superior do cérebro já tenha morrido.
FONTE: Revista Veja nº 2256 - ano 45 - nº-7, 15 de fevereiro de 2012.
***
Dormindo, já passei por inúmeras vezes pela desconfortável situação acima descrita. Você sente que está consciente, mas não consegue mover nenhuma parte do corpo. Durante um certo período da minha vida isso acontecia quase que diariamente, o que me causava um enorme embaraço sempre que eu ia dormir. A sensação de que há algo querendo sair de você é bem estranha e causa certo pânico. O cérebro é mesmo uma máquina admirável.
segunda-feira, 5 de março de 2012
Bye, bye, Perpétua!
Como todo o Universo já sabia, Perpétua Almeida (PCdoB) foi preterida como candidata à Prefeitura Municipal de Rio Branco em favor de Marcus Alexandre (PT), candidato dos irmãos Viana. Resultado diverso não poderíamos esperar. O PCdoB nunca passou de um partido nanico, desprovido de moral e sem nenhuma autoridade para exercer algum tipo de influência decisiva na Frente Popular. É uma aglomeração partidária subserviente, que vive a bajular o PT em troca de uns carguinhos que garantam o l'argent - Edvaldo Magalhães que o diga. Logicamente, a comunista não iria manter sua candidatura e pôr a cabeça do seu marido na guilhotina por um "capricho".
Perpétua dramatizou desde o início. Bateu o pé e disse que iria manter seu nome para as disputas municipais deste ano. A única coisa que conseguiu foi sair desmoralizada e ridicularizada em todos os sentidos. Publicou uma nota em que tece suas dissimuladas lamentações, dando a entender, até, que sofreu por ser mulher e que alimentaram certo preconceito contra ela por sua condição feminina. Nada mais sem sentido. Perpétua Almeida foi cortada das eleições municipais pela simples vontade do PT em manter-se indefinidamente e a ferro e fogo no poder. Como os petistas iriam cogitar aceitar que a chapa fosse encabeçada por uma representante de um partido eternamente coadjuvante como o PCdoB?
O PT acriano (e nacional) nunca pretendeu ter aliados políticos; o que sempre quis mesmo foi ter aduladores incondicionais, função que os comunistas sempre exerceram com maestria. Que não reclamem agora: o PCdoB está apenas colhendo o que vem plantando há mais de 10 anos no Acre.
Pra piorar a situação, o governador Tião Viana troçou no Twitter: "Agradeço em especial ao PCdoB, que conduziu o processo com maturidade política e lealdade ao projeto". Risível.
Gostaria de saber onde andam os abostados da UJS agora.
Como previu o deputado Major Rocha, a candidatura da Perpétua miou, e o PCdoB, como sempre, amarelou. Sob solo acriano, tudo continua na mesma, pelo menos por enquanto, uma vez que o PT é um partido com os dias contados.
Rabinho entre as pernas e bye, bye, Perpétua. Vá perpetuar noutro lugar. Agora é esperar os desfechos no Juruá. Ainda vamos rir muito, senhores.
domingo, 4 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
O curioso Leandro Altheman
Curioso: para Leandro Altheman - o jornalista xamanista "correspondente" da RTV Juruá em Rio Branco -, quando o Governo de São Paulo, do PSDB, usa a força policial para dispersar "movimentos reivindicatórios", é autoritarismo da burguesia capitalista elitista que comanda o estado. Mas quando é o governo do PT que tasca bala de borracha e bombas de efeito moral em meia-dúzia de miseráveis no Acre, trata-se apenas uma armação da porca oposição direitista acreana.
Haja estômago.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Veja vê vantagens na leitura de lixo
por Janer Cristaldo
Mas há leituras e leituras. Uma coisa é ler Harry Potter e outra é ler Crime e Castigo. Conheço inclusive leitores contumazes – e os conheço de perto - que lêem talvez até mais do que eu leio, mas não fazem distinção alguma entre Rowling e Dostoievski. Crime e Castigo? Ah, sim a história daquele estudante que matou uma velhota? E estamos conversados. Como se fosse entrecho da novela das oito. As reflexões do russo sobre a vida e a morte, sobre o homem, Deus e a sociedade, escorrem como água entre os dedos. Ou seja, ler nem sempre é sinônimo de aquisição de cultura.
A revista Veja desta semana dá capa ao último best-seller tupiniquim, o padre Marcelo Rossi, com o título “O milagre da leitura”, enfocando Ágape, livro que já vendeu 7,5 milhões de exemplares. Em editorial, a revista saúda “os resultados auspiciosos do censo encomendado ao Upea pela Câmara Brasileira do Livro. Os dados mostram que, de 2009 para 2010, o número de exemplares impressos no Brasil bateu em quase 500 milhões, com um crescimento de 23%.”
Desse montante, 230 milhões pertencem ao que chamo de indústria textil – assim mesmo, sem acento, a indústria do texto. 144 milhões são comprados pelo governo e distribuídos gratuitamente às escolas, o que explica em boa parte a perenidade de autores que há muito estão mortos e bem mortos. E explica também a ojeriza dos jovens à leitura.
Muito bem. Mas que está lendo o brasileiro? Para começar, o tal de Ágape, do padre Marcelo Rossi. Ladeado por Zíbia Gasparetto, escritora espírita cujos livros são ditados por entidades de luz e já venderam 16 milhões de exemplares. Mais Jô Soares, que mistura o imperador D. Pedro II com Sarah Bernhardt e Sherlock Holmes, mais um violino Stradivarius. Mais outros ilustres nomes das letras pátrias, dos quais jamais ouvi falar: Thalita Rodrigues, crônica do cotidiano dos jovens; Ana Beatriz da Silva, série sobre as angústias da mente; Roberto Shinyashiki, o guru corporativo que fala sobre felicidade. Jô à parte, tudo auto-ajuda, esse gênero abominável da literatura, que vende falsas esperanças para os pobres de espírito.
Isso que Paulo Coelho não foi arrolado na reportagem, por não ter publicado título novo desde 2010. E sem falar em Gabriel Chalita, autor polímata que em seus 43 anos escreveu mais de 60 livros. Dos quais ninguém lembra título algum.
O Brasil está cheio de escritores que vendem milhões de livros e dos quais jamais ouvimos falar. Alguém conhece algum título – ou pelo menos ouviu falar – do padre Lauro Trevisan, de Santa Maria? Pois o homem – leio na Wikipédia – é autor de mais de 40 livros, todos eles best-sellers a nível internacional, com mais de dois milhões de exemplares vendidos. Em Portugal, as suas obras Apresse o Passo Que o Mundo Está a Mudar (2001), Como Usar o Seu Poder para Qualquer Coisa (2002), Conhece-te e Conhecerás o Teu Poder (2002), Regressão de Idade para a Libertação Total (2001) e Relax com Programação Positiva(2001) estão publicadas pela Editora Pergaminho. Os gaúchos têm uma celebridade em seus pagos e a desconhecem. Estes livros, você não os vê nem em livrarias. Exceto, é claro, na livraria que o padre administra em Santa Maria. São vendidos a partir de conferências e cursos de auto-ajuda.
Quem me acompanha, sabe de minha ojeriza aos best-sellers. Se um livro vendeu de repente um milhão de exemplares, este é um de meus critérios para não comprá-lo. Não existe tanta gente inteligente no mundo. Não existe um único best-seller em minha biblioteca. Aliás, quando saio atrás de um título, tenho de trotar entre uma livraria e outra, pois trata-se de livro geralmente pouco divulgado.
Os brasileiros estão lendo mais, diz Veja. Ora, de que adianta ler mais, quando o que se lê é isso? “O intelecto só precisa de uma faísca, mesmo que fraca, para acender o fogo da curiosidade e abrir uma clareira acolhedora que dará início ao interminável processo de enriquecimento do mundo interior. Qualquer livro pode ser essa faísca”. A frase soa a texto de auto-ajuda. Pelo jeito, o redator se deixou contaminar ao lidar com tanto lixo.
Paulo Coelho ou padre Marcelo, Zíbia ou Trevisan, Thalita ou Chalita não produzem faísca alguma, não acendem fogo algum nem abrem clareira alguma. Quem lê essa gente jamais vai chegar a Poe ou Pessoa, a Dostoievski ou Orwell, a Cervantes ou Nietzsche.
Não vejo vantagem alguma neste maior número de brasileiros que lêem, quando o que se lê é lixo.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Dona Ruth
Filha única de um guarda-livros com uma farmacêutica que dava aulas de botânica, química e biologia, Ruth Corrêa Leite Cardoso estudou ciências sociais entre 1949 e 1952. [...]
Muitos lhe conferem o mérito de introduzir no país a antropologia urbana - pioneirismo que assumiu junto de Eunice Durhan, Gilberto Velho e outros. Investigando as cidades, se interessou por detectar e analisar processos socioculturais emergentes, capazes de transformar o cotidiano, em especial o das áreas pobres. Não à toa, se debruçou sobre a rotina das favelas, a integração dos imigrantes japoneses no Brasil, as novas configurações da juventude, o feminismo, os meios de comunicação, o terceiro setor, as cozinhas comunitárias e a adoção de crianças pelas classes baixas. [...]
Fernando Henrique Cardoso sobre Ruth Cardoso:
Ninguém de bom senso negará a importância da Ruth para a modernização da antropologia no Brasil. Ela e a Eunice (Durham) constituíram o time de antropólogos que primeiro se interessaram pelo urbano. Tradicionalmente, a disciplina de dedica à análise de povos ágrafos, que não dispõem da escrita. Ruth, no entanto, sempre achou mais pertinente esmiuçar o universo das cidades, talvez por ser de uma geração que viu o paíes se urbanizar. [...]
Ruth ainda me alertou para a força dos movimentos sociais. Recordo que, lá pela década de 1970, grupos da periferia de São Paulo reivindicavam do governo avanços na área de saúde pública. Eu olhava aquilo e previa: "Não vai resultar em nada". Sob o meu prisma, os grupos pressionavam o estado à toa porque as exigências populares se perderiam no gabinete do burocrata. Ruth não raciocinava desse jeito. Ela já notava que já existia a chance de aquelas ações causarem - como realmente causaram - mudanças mais profundas, mais políticas na estrutura do estado. Ou melhor: que daqueles grupos surgiriam vereadores, deputados e outras lideranças capazes de agir efetivamente dentro da máquina estatal.
Influenciado pelo marxismo, eu acreditava que as transformações só iriam decorrer da luta de classes - do choque entre o proletariado e a burguesia. Ruth me corrigia: "Não, a luta não precisa ser apenas de classe. A luta também pode ser do povo contra o Estado".
Ruth tinha intimidade com as teorias de Marx. Acontece que nunca adotou uma visão estritamente marxista. Ela ia na contramão de todos nós e não enxergava a luta de classes como único motor da história. Daí se interessar tanto pelo conceito de sociedade civil - uma ideia extramarxista, digamos.
FONTE: Revista BRAVO! Ano 14, nº 174 - Capa: Ruth Cardoso e FHC.
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Depois de ler a matéria completa sobre a ex-primeira-dama tive a sensação de que ela - e não seu marido - era quem deveria ter sido a presidente deste país.
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